Contos

Um conto...
Além do Surreal, Juliano G. Leal já escreveu muitos contos. Vários deles foram publicados originalmente no Realidade Profética; alguns no Facebook, como notas no perfil dele ou no grupo de estudos bíblicos do MARP (GERP); outros, estão prontos mas continuam aguardando publicação.

Nós vamos tentar aos poucos, reunir esses contos nesta página. Dessa forma você poderá ler todos juntos, como num e-book!

Visite-nos regularmente para ficar por dentro das atualizações. Os contos estão listados de acordo com a data de publicação, com os mais recentes mais acima. As citações após uma linha no final de alguns contos são comentários do Juliano, exatamente como estão no local onde foi publicado.

Divirta-se!


Um conto de Halloween
Publicado originalmente no Realidade Profética em 31/10/2013.

Há muito tempo atrás, existia numa cidadezinha do interior uma pequena praça onde todos os cidadãos reuniam-se para socializar-se. Como um dos primeiros estabelecimentos comerciais da cidade era uma livraria chamada Rostolivros e a praça foi instalada bem em frente a livraria, a praça passou a ser conhecida como Praça da Rostolivros.

Tudo correu muito bem durante anos, até que um dia aconteceu algo terrível naquela praça. Uma senhora idosa muito respeitada na cidade foi brutalmente assassinada em pleno coreto. Ela se chamava Beth Cass.

Dali em diante, coisas sinistras começaram a acontecer na Praça da Rostolivros. Protestos contra a violência que eram violentos; campanhas para proteção de animais cujos organizadores maltratavam pessoas; milhares de gatos saíram de repente de vários buracos no chão e invadiram a cidade; militantes religiosos surgiram alertando sobre o fim do mundo; equipes de televisão começaram a noticiar com frequência as esquisitices daquela praça.

Um Coreto

Então, pesquisadores de diversas áreas, oriundos dos quatro cantos do globo, confluíram para aquele pitoresco cenário na tentativa de desvendar o mistério da Praça da Rostolivros.

Isso piorou a situação. Alguns comentários científicos tornaram-se munição de grosso calibre nas mãos dos fanáticos religiosos. Do outro lado, disputas para saber quem estava com a razão se transformaram em verdadeiras batalhas campais. A bucólica praça do interior, virou uma praça de guerra.

Perto do Halloween, as tensões aumentaram significativamente, e black-blocs fantasiados de monstros quebraram as lojas e os bancos e invadiram as casas para sequestrar os bichos de estimação das pessoas.

No Halloween, um homem muito alto e sem rosto apareceu vestindo roupas típicas alemãs. Ele usou um iPhone tocando músicas da Galinha Pintadinha e raptou todas as crianças da cidade. De quebra, pássaros nervosos e porcos verdes o protegeram, atacando quem tentou persegui-lo. Foi o caos!

A polícia e as Forças Armadas foram acionadas. Centenas de homens e equipamentos foram deslocados para o local para tentar conter aquele tumulto. O prefeito estava prestes a declarar estado de emergência quando um vírus de computador fez os veículos vazarem seu combustível que entrou em contato com o chão amaldiçoado da cidade, transformando todos os cavalos da operação em cavalos egípcios verdes flutuantes e os cães farejadores em girafas demoníacas assaltantes de geladeira.

Parecia ser o fim, e não haver mais nenhuma solução quando uma luz surgiu vinda dos céus e disse:

- Beth Cass não morreu. Ela apenas mudou-se para uma cidade menos ignorante. Vocês estão tendo uma crise de histeria coletiva. Parem com essa bobagem e voltem às suas vidas normais!

O povo parou por um instante absorvendo a cálida e confortante energia daquela divina luz azulada. Mas quando parecia que as coisas iriam se ajeitar, alguém gritou:

- Não é a voz de Deus, são extraterrestres evangélicos que vão nos transformar em zumbis!

E começou tudo de novo...
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Essa é uma obra de ficção, qualquer semelhança com fatos ou lugares que você conheça, é coisa da sua cabeça.

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Recomeço
Publicado originalmente no Realidade Profética em 04/02/2013.

O despertador tocou anunciando uma manhã comum. Ele virou na cama e o espaço ao seu lado estava vazio. Escorregou a mão para cima e para baixo, ainda muito sonolento, sem ter uma verdadeira noção do que estava acontecendo.

Cochilou.

O tempo da soneca acabou, o despertador tocou novamente. Algum dispositivo no seu cérebro conectado à rotina disparou junto com o despertador, derramando em seus nervos o alerta de um possível atraso. Pulou da cama esfregando o rosto e correu para o chuveiro.

Saiu do banho se espreguiçando e chamou:

-Amor!

Foi trazido abruptamente mais uma vez para a realidade.

O buquê presenteado pelos colegas murchava sobre a mesa. As coisas espalhadas pela casa davam um ar morno e estagnado ao ambiente, e na sua mente ecoou a voz do chefe dizendo:

-Tire a semana de folga...

Sua respiração mudou. Seus olhos marejaram. Sentiu-se tontear, mas ao invés de desmaiar, uma dor lancinante, praticamente insuportável, atravessou seu peito. Um choro abafado se derramou copiosamente sobre seu rosto, que se contorcia abusando de toda a capacidade de seus músculos. A boca, aberta, escancarada como se não pudesse comportar o tamanho do grito que desejava dar, não emitia nenhum único som. Atirou-se contra uma parede próxima como se desejasse que esta lhe estendesse os braços para lhe dar colo, e deslisou até tocar o chão, que no momento era onde ele realmente sentia estar.

Houve um soluço. Um gemido. Um engasgo. Um suspiro.

Sobre uma estante ele a viu sorrindo numa fotografia. Lembrou-se do dia em que foi feita. Lembrou do motivo daquele sorriso. Lembrou de porque que a amava tanto. E de repente, paradoxalmente, se flagrou sorrindo, ao lembrar de como ela gostaria que ele estivesse agora.

E se levantou. Com os olhos firmes naquele sorriso percebeu o que era aquela dor toda:

Saudade. Um efeito colateral do amor verdadeiro.

E pensou:

-Muitos devem estar com saudade de mim também. Então, assim como você meu amor, vou providenciar sorrisos que os motivem, caso algum dia eu vá embora de repente como você foi.

Sentiu vontade de sair e voltar a viver. Uma vida que deixasse sua amada orgulhosa.

Abriu a caixa de correio. Lá estava um bilhete carinhoso de uma senhorinha que morava ao lado:

-Sinto muito por sua perda. Estou orando por você. Não fiz uma visita pois quis respeitar seu momento de luto. Se precisar de algo, não exite em me pedir. Que o Senhor Jesus lhe dê conforto nesta hora difícil.

Dobrou o bilhete com carinho. Colocou no bolso. Enxugou uma lagrima que insistia em descer pelo canto do seu olho. Sorriu e disse:

Ele já me deu. Me deu um lindo sorriso, e trouxe a minha memória algo que me deu esperança.

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Em memória dos atingidos pela tragédia em Santa Maria, RS.

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O Menestrel e a Jovem Dama
Publicado originalmente no Realidade Profética em 24/10/2012.

Em um lugar muito familiar às pessoas que procuram cura para suas emoções, não tão distante dos outros onde as outras histórias dessa coluna aconteceram, um jovem casal descobre o amor. Um menestrel e uma jovem dama da corte, percebem que podem se unir e formar uma família. Ou assim pensavam eles.

Como todos os outros casaizinhos enamorados, só tinham olhos um para o outro, mas por um golpe muito sutil de suas emoções, tiveram seu conto de fadas roubado pelo duende mais cruel de todos os contos de fada.

Rumorcritiquin!

Esse duende era provavelmente um parente distante de Rumpelstiltskin, e suas técnicas muito mais apuradas e ardilosas. Enquanto Rumpel era sagaz, fazendo contratos que pareciam ser bons mas que eram cheios de armadilhas, Rumorcritiquin era pior, pois as pessoas nem mesmo percebiam estar fazendo um contrato com ele. E ele não exigia assinatura em papel! Para assinar com Rumorcritiquin bastava apenas repetir as palavras que ele dizia na hora em que estava fazendo seu feitiço. Ao fazer isso, quem pactuasse com ele, nem percebia que estava oferecendo o mesmo pacto à todos os que estivessem ao seu redor.

De repente, o reino todo estava sob seu domínio, e caso alguém começasse a perceber a sua influência, ele se disfarçava muito bem, mudando inclusive de nome, passando a se chamar Nadaseh, Nadavih ou Nahfueh, que era amado e cuidado por todos quando fazia suas visitas surpresa.

Mas o casal não sabia como lidar com ele, e assim como seu primo Rumpel, ele sacaneia os dois, fazendo com que todo o tipo de boato começasse a ser espalhado sobre eles. O jovem menestrel foi acusado de ser um ex-bobo da corte que estaria se aproveitando de seus talentos em mentir e fazer rir para agradar a família da jovem dama. Ela por sua vez, acusada de mentir sobre seu passado e ter sua nobreza posta em duvida pelo reino e pelos súditos.

Cada pessoa começa a criar sua própria versão da história, e a medida em que isso acontece, Rumorcritiquin fica mais forte ao ponto de ter poder para fazer o que sempre desejara: separar os dois.

Caprichando novamente com base no case de sucesso da família, Rumorcritiquin decide enviar os enamorados não para uma, mas para duas realidade paralelas diferentes do reino, onde ele governa nas duas. Na dimensão do menestrel, Rumorcritiquin adota o nome de Izholamenttho, um rei cruel que tortura e mata seus desafetos com músicas que lhes fazem lembrar seus fracassos e reafirmar que estão sozinhos.

Na dimensão da jovem dama, ele adota o nome de Dhazillusan, um rei mentiroso e debochado que torna as pessoas frias e sem gosto pela vida através de seu pessimismo sarcástico.

Algumas pessoas no reino, sentiram falta deles e começaram a trabalhar para descobrir o motivo de seus desaparecimentos. Entre os súditos, estava um velho mago, magrelo e mal humorado que já tinha sido vítima de Rumorcritiquin no passado e começou a reconhecer sua magia.

Durante toda sua vida ele estudara a Magia Profunda e queria ter uma oportunidade não para se vingar, mas para provar a Rumorcritiquin que ele não era imbatível, e que não se consegue ter êxito no mesmo reino duas vezes.

Foi quando o mago, quase por acidente, descobriu uma passagem entre as dimensões. Mas para usar essa passagem ele precisaria de um amuleto extremamente perigoso e difícil de usar chamado Rhe Dsóchal. Usando todo o seu conhecimento, ele conseguiu entrar na realidade da jovem dama, onde ele a encontrou boçal e enfeitiçada por um fazendeiro rico que criava renas. Uma piada de mal gosto de Rumorcritiquin, já que o menestrel era amigo dos cavalos.

Se disfarçando de menestrel, o mago conseguiu acordar a jovem dama de sua hipnose fazendo com que as sutis amarras de Rumorcritiquin se desmanchassem, fazendo com que os dois caíssem de volta à realidade original. Mas essa era só metade da história. O amuleto Rhe Dsóchal não funcionava na realidade depressiva do menestrel.

Para piorar a situação, o mago teria que entrar de fato na realidade do menestrel, fisicamente, sem a proteção do amuleto. Isso só seria possível se o mago encontrasse o local exato de um portal muito raro chamado Unsquan Tospila pra poder viajar através dele e chegar onde o menestrel estava.

Numa reviravolta inesperada, o mago descobre com ajuda da jovem dama que através de uma aliança fraterna, o mago poderia levar o amor dela para o menestrel e assim despertá-lo. Mas para funcionar, a aliança precisava ser feita num lugar onde houvesse um lago sobre uma montanha, ao por do sol.

Somente com sua fé e esperança, o mago e a jovem dama partem para as montanhas para descobrir o lugar. Depois de caminharem horas e o mago sentir o peso de sua idade dilacerando seus ossos, e a jovem dama quase desistir, ainda com sequelas da sua recente experiência, eles encontram um sinal escondido perdido entre a vegetação que apontava o caminho.

Estando lá, estavam prestes a fazer a aliança quando um batalhão de escravos de Rumorcritiquin tentou atacá-los. Mas o mago usou uma dose de uma poção muito preciosa e extremamente difícil de preparar chamada Khoszientia Lihppa, e fulminou todos de um só golpe.

Estavam quase perdendo o por do sol quando finalmente conseguiram fazer a aliança que os transformaria em irmãos. Assim que fizeram, um mapa para o local onde ficava o portal Unsquan Tospila, apareceu sobre o reflexo do lago.

Eles memorizaram o mapa como puderam. E partiram.

Algumas semanas depois, a dama estava em perigo novamente. Usando a aparência de Nahfueh, Rumorcritiquin estava fazendo-a acreditar que seu menestrel sempre esteve ao seu lado, mas não era o fazendeiro da outra dimensão, mas o filho do fazendeiro nessa dimensão.

Num último ato de lucidez, ela pede ajuda a seu irmão e o velho mago sai numa jornada suicida em direção a Unsquan Tospila. Ao se aproximar do lugar, uma terrível tempestade se abate sobre ele. No último lugar que o mapa mostrava antes de Unsquan, havia um enorme rio e do outro lado um grande porto na planície onde estava o portal. Mas a tempestade afundou muitos barcos. E o mapa dizia que o portal só permaneceria aberto durante o tempo em que o sol o iluminasse de frente. Olhando para as direções o mago viu que o portal estaria aberto apenas seis horas durante a tarde. E com a tempestade ficaria mais difícil controlar o tempo. Ele estava sozinho.

Como que vindo do céu, um barco apareceu na margem do rio e ele pegou. A travessia foi lenta e muito molhada. Ao chegar no porto, percebeu que a luminosidade do dia se extinguia rapidamente. Mas Unsquan Tospila permanecia aberto, atraente e perigoso. Respirou fundo. Atravessou.

Do outro lado não chovia mais. Era silencioso e aconchegante, embora muito escuro. No fundo de uma caverna, estava o nobre bardo encolhido sobre panos velhos ouvindo um duende magro, amarelo pálido, cantarolando uma melodia melancólica sobre como era inevitável sofrer. Mas ao avistar o mago, o duende se transformou numa velha gorda, cheia de bolhas que pareciam olhos e uma pele roxa, que começou a dar gargalhadas ridículas apontando o mago, fazendo com que se sentisse ridículo e incapaz de cumprir seus objetivos.

Usando uma espada que chamava de Musar, dividiu o duende ao meio, despertando imediatamente o menestrel do transe. Antes que o menestrel pudesse sequer pensar, o mago o arrastou para fora do portal, desejando nunca mais voltar a Unsquan Tospila.

Sem entender direito a situação e sofrendo muito, o menestrel teve raiva do mago. Mas com o tempo e uma longa explicação, começou a se acalmar. A tempestade enfraquecera e dava lugar a uma noite que começava a ficar levemente fria.

Exausto, o mago chegou ao lugar onde a jovem dama se encontrava e ao se verem, os dois mal podiam acreditar que haviam se reencontrado. Se abraçaram e sorriram, mas as feridas de Rumorcritiquin ainda doíam e levaria um bom tempo até que eles pudessem ser "felizes para sempre".

O mago sumiu logo em seguida. Não foi embora, dizem por aí que ele construiu uma arma super poderosa contra todos os duendes, monstros e outras coisas que insistem em machucar as pessoas nos lugares em que deveriam ser curadas. Diz a lenda que essa arma se chama Beher Epeh, mas isso já é outra história.

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Conto baseado numa história real. Com conceitos emprestados de Shrek, Nárnia, Senhor dos Anéis e Harry Potter.

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Lúcia
Publicado originalmente no Realidade Profética em 15/04/2012 na coluna Coisas que aprendi na igreja capítulo XVII.

Quando pensamos no diabo, a primeira imagem que nos vem à mente é a bizarra figura de tridente e chifres que se fixou no imaginário ocidental. Mas essa imagem foi inventada pela igreja católica pra que as pessoa ficassem com medo do inferno.
Entretanto, a Bíblia não fornece uma descrição assim dele.Todas as figuras bíblicas alusivas a este ser são diferentes da citada. Temos a serpente, o dragão, mas a que vamos ver em ação na história de hoje é a mais perigosa de todas.

O Anjo.

Nossa história de hoje tem lugar numa cidade do interior, mas nem por isso uma cidadezinha. De fato, uma cidade bem movimentada pro interior. Com ares de metrópole mas com simpatia de fazenda, era o palco cultural perfeito para que uma moça cheia de más intenções se estabelecesse para protagonizar um episódio quase fatal. Apenas para facilitar a narrativa, vou chamá-la de Lúcia.

Uma igreja bem desenvolvida, conhecida e respeitada foi o primeiro passo do plano sendo posto em prática. Mas ninguém sabia. Ninguém imaginava. Ninguém suspeitava ou suspeitaria de uma jovem bem arrumada, de bons modos, de bom gosto e muito, muito bonita.

Apresentada num culto de ceia como novo membro da igreja, logo atraiu os olhares dos rapazes, que sentiam cheiro de carne nova. E também atraiu os olhares fulminantes das moças que viram nela uma concorrente. Mas isso logo passou. Em uma semana a moça era respeitada e admirada por ser uma moça de oração muito comportada e exemplar.

Apesar de ser algo estranho se observado de fora, um fato não chamou nem um pouco atenção das pessoas. Ela realmente orava muito, e na maior parte do tempo em línguas estranhas. Entrava em "mistérios" realmente rápido. Um "ser inferior e pouco espiritual" ousou questionar esse comportamento e quase foi escorraçado da igreja. Ela já estava sendo beatificada pela idolatria pentecostal.

Aproximadamente três meses depois de ter chegado, começaram as visões. Sempre muito ricas e repletas de detalhes que embriagavam a audiência. Em cinco meses, as pessoas iam à igreja ansiosas esperando que a abençoada irmã Lúcia tivesse uma visão. Assim começou a simbiose. A vampirização. Eles precisavam das manifestações para alimentarem suas necessidades místicas. Ela estava satisfeita com a adoração que recebia.

Um ano. O comportamento da igreja havia mudado lentamente. Para algo nada saudável. longe de mudanças positivas que afastam do pecado e trazem transformação de caráter, as pessoas estavam absortas num sistema de peregrinação e busca desenfreada por milagres. E aí começaram as revelações pessoais e as previsões sobre o futuro das pessoas. Revelações sobre heranças e casos judiciais que seriam  "desamarrados para a glória de deus". Promessas de casamentos arrebentados que seriam reunidos. E a pior parte: avisos de que a liderança da igreja estava sob ataque e perseguição "das trevas".

Seguiu-se um frenesi de pânico. Não se falava de outra coisa na igreja. Foram organizadas vigílias e movimentos de todo o tipo para fazer guerra espiritual e "proteger a liderança". Membros ligavam várias vezes por dia para saber se o pastor estava bem, fazendo com que a carga de estresse dele que já era significativa, aumentasse ainda mais. Mas Lúcia, pelo incrível que pareça, conseguia manter a calma.

Neste clima de tensão, um dos líderes mais influentes foi flagrado em adultério pela própria esposa. A igreja viu isso como o primeiro ataque. Obviamente que a luz de Lúcia precisava ser considerada sobre os fatos. E ela foi "buscar de deus" pra saber a resposta. Que resposta? Se o líder permanecia ou não ministrando? Se devia ser perdoado, aconselhado, tratado? Não. A proposta dela era clara. Ia "consultar deus" pra decidir se o homem devia ou não sair da igreja. Um cavalo derrubado abriria o caminho para a dama negra se aproximar do rei.

Os "ataques" se intensificaram, e a líder do ministério de intercessão caiu gravemente enferma. E as suas melhores amigas, que eram justamente as pessoas que poderiam substituí-la em sua função, foram gentilmente aconselhadas por santa Lúcia (sob divina inspiração), a auxiliarem sua amiga nessa hora difícil. As torres estavam no chão.

De posse de um versículo bíblico muito forçadamente arranjado para favorecer o contexto escolhido, ela abordou o líder de adoração dizendo que deveriam fazer um "louvorzão", pra "mostrar pro inimigo que não temos medo dele". E o bispo acatou a ideia, saindo de sua posição, desviando sua atenção da realidade e deixando o rei em xeque.

Acontece, que a esposa do pastor, que por acaso naquela igreja também era pastora, nunca tinha parado de orar. E já há algum tempo tentava avisar o marido de que algumas coisas a inquietavam à respeito de Lúcia. Mas ele sempre achava que era "implicância dela com a menina".


A rainha branca reuniu um grupo de peões e se trancou no castelo em uma reunião privada de intercessão. Não aconteceram visões, nem profecias, nem ventos, nem tombos pelo poder, nem manifestações sobrenaturais externas. Lágrimas desciam de rostos que confrontavam os assuntos debatidos com a verdade Bíblica e demonstravam  um claro afastamento dos valores originais e do sobrenatural sadio de Jesus, dos Apóstolos e dos Profetas.

Ali aconteceu uma mudança. Um impacto realmente vindo do céu sacudiu aquelas pessoas. De dentro pra fora, de forma consciente, eles experimentaram uma revelação verdadeira, que foi incontestável, e veio à todos simultaneamente. O pecado de cada um, o pecado da igreja, ficou evidente. E algo precisava ser feito.

Mas o quê? E como?

Um mês se passou da reunião de oração. Tudo continuava como estava. Mas todos foram para o tal louvorzão. Se estivéssemos lá com as informações que temos aqui, veríamos o clima tenso no ar entre as duas mulheres. Ambas já sabiam uma sobre a outra, e a verdadeira guerra espiritual ia começar.

O culto foi acontecendo, mas bem na metade, houve algo muito interessante. A intercessora que estava doente chegou na igreja e pediu especificamente para que a "amada irmã Lúcia" fosse encontrá-la nas dependências da igreja.

Ao avistar as duas indo em direção às salas reservadas, a pastora também se deslocou naquela direção, sinalizando aos seus soldados que a acompanhassem. Ao entrarem, se depararam com uma cena bizarra. Lúcia bufava com os olhos semicerrados, demonstrando estar pronta para agredir quem se atravessasse em seu caminho. Mas antes que você pergunte, não, ela não estava "possessa", ou endemoninhada. Ela estava furiosa.

A intercessora estava desmascarando "Sua Santidade" e revelando que tudo que acontecera era um enorme jogo psicológico, levemente satânico, para trazer confusão àquela igreja.

Na igreja eu aprendi que muitas vezes, fazemos questão de divinizar o homem de um jeito tão absurdo que convidamos o diabo a invadir nossas vidas através de pecados como a idolatria. E não conseguimos identificar a ação dele nas situações, simplesmente porque estamos cegos com a sua "luz". Ele se veste de Anjo de Luz e engana até mesmo os mais experientes. Gostamos do doce sabor do veneno que ele sutilmente injeta e morremos gozando. A velha história do sapo na panela.

Mas vale o ditado: Pode-se mentir pra muita gente por pouco tempo, pouca gente por muito tempo, mas não dá pra enganar todos o tempo todo...

A verdade aparece, e quase sempre do jeito que diz o hino: marchando.

Querem saber o que houve com a Lúcia? Mudou de cidade, foi pra longe sem deixar rastros. Assim, pode fazer tudo novamente em outro lugar, sem que fosse denunciada. O objetivo dela era dominar a igreja e ser sustentada pelo ministério. Mas a Luz da Verdade brilhou nas trevas. (1 João caps. 1 e 2).
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Essa história é um conto montado a partir de três histórias reais.

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No meu tempo...
Publicado originalmente no Realidade Profética em 21/12/2011.

O guri pergunta pro pai:

-Pai, tu apanhava quando era pequeno?
-Sim.

Aí o guri pergunta pra vó:

-Vó, porque tu batia no pai quando ele era pequeno?
-Porque ele merecia. Era muito arteiro. Se a gente não endireita o piá em casa, a brigada endireita ele na rua. E pai e mãe amam. Cuidam pra não machucar. brigadiano não quer saber, desce o porrete!

De volta ao pai:

-Pai!
-Que foi...
-Eu sou arteiro?
-Um pouco. Às vezes muito.
-E porque tu não me bate?
-Porque eu posso ir preso.
-Como assim pai?
-Pais que batem nos filhos hoje podem ir presos.
-Não entendi nada.
-Como não, filhote?
-É que a vó te bateu pra tu não ir preso e agora tu não me bate pra tu continuar não indo preso?
-Um dia tu vai entender, filho. Agora vai brincar vai...

Mas ele volta pra vó:

-Vó!
-Fala querido!
-O pai disse que se ele me bater que nem tu batia nele ele vai preso!
-Os tempos mudaram meu filho. As pessoas que escrevem as regras que temos que obedecer acham que hoje é melhor assim. No meu tempo era diferente...
-Diferente como vó?
-Vai ficar tarde filhote, teu tempo de brincar é agora, daqui a pouco quando tu entrar a vó te explica.

O guri se afasta, e a vó murmura consigo mesma:

-Um dia meu filho, tu vai entender. Vai perceber que no meu tempo os pais educavam os filhos pra que não houvessem delinquentes. E esses, quando havia, iam pra cadeia. Hoje, os pais de família irão pra cadeia por causa de uma palmada. Porque os delinquentes ladrões e salafrários que deveriam estar na cadeia, estão escrevendo leis.

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E se...
Publicado originalmente no Realidade Profética em 20/12/2011.

Olá. Eu quero jogar um jogo com vocês. Vocês foram trazidos até aqui por praticarem o mesmo mal. Agora, vou colocar diante de vocês algumas opções. Nenhuma delas é fácil de se escolher. Todas elas vão exigir de vocês habilidades que até agora vocês demonstraram não possuir.

Todos os dias, milhares de inocentes acreditam nos discursos que vocês vomitam do alto dos seus púlpitos. E sustentam as regalias e luxos de vocês com um dinheiro que quase morrem para receber. As bocas das crianças da periferia deixa de ser cheia para que os bolsos de vocês se farte.

A justiça e a restituição vão começar.

Diante de vocês estão três caixas. E vocês são, como podem ver, três pregadores. Como o que vocês mais fazem é pregar, por dedução, acredito que saibam usar martelo e pregos.

Eles estão espalhados pela sala. Em cada caixa existe madeira suficiente para que sejam feitas três cruzes. E acho que como se usa uma cruz eu não preciso explicar.

Uma vez vazias, as caixas podem ser vistas como um caixão. E serem usadas como tal.

Por fim, todas as caixas estão sobre superfícies modulares hidráulicas que funcionam como balanças. Para cada pedaço de madeira que vocês tirarem da caixa, um prego será disparado contra vocês em áreas não letais do corpo e um hacker estornará R$ 100 em dinheiro das contas das igrejas de vocês e depositará na conta de uma entidade humanitária de verdade.

Para que os pregos e os estornos parem, dois de vocês precisam aceitar morrer pelo terceiro, e o terceiro precisa matar os dois. Ou os três precisam equilibrar o peso das caixas de forma que voltem ao lugar em que estavam quando carregadas.

A quantidade de madeira nas caixas pesa o mesmo que o material fora das caixas.

Finalmente, aquele que amar a sua vida, vai perdê-la. O que escolher perdê-la, pode ser que a encontre.

Bom jogo!
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Se alguém se ofendeu, achou cruel ou maligno demais, desculpe, é apenas um conto que pergunta:  E se um doido decidisse fazer isso?
Os doidos existem e seria melhor mudar de atitude antes que eles apareçam.
Isso é apenas um conto. Existem ideias muito piores e muito mais macabras que essas aí, no cinema e nos livros, inclusive na própria série que satirizei no post.

Só um conto.

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Um Homem Simples
Publicado originalmente como nota de perfil no Facebook. Posteriormente no Realidade Profética em 11/10/2011.

Um mendigo está sentado na calçada de uma avenida olhando o entra e sai de pessoas numa mega igreja do outro lado da pista, quando ele vê se aproximar um homem de aparência saudável, roupas limpas mas tão ou mais velhas que as suas. 

Ao se aproximar da portaria do grande templo um segurança equipado com o melhor da tecnologia simplesmente fecha a cara e aponta na direção do mendigo que tudo observava.

O homem baixa a cabeça e atravessando a avenida se assenta ao lado do mendigo, que comenta:

"Gente simples 'quenem' nós não tem vez ali, é assim mesmo. Não fica triste, um dia eles aprendem..."

O homem responde:

"Achei que seria bem vindo, afinal, puseram meu nome na fachada..."

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O Cavalo e a Mula
Publicado originalmente como nota de perfil no Facebook. Posteriormente no Realidade Profética em 04/10/2011.

Cavalo: Olha, o susto foi tão grande que eu nem sei como sobrevivi. 

Mula: Eles não tem noção do que é isso cara! O pecado deixou eles cegos. E o pior é que a gente vê tudo e nunca pode falar nada.

Cavalo: Mas tu falou! Eu só pude relinchar bem alto e com toda a força. A sensação era de que eu ia morrer! Eu não queria derrubar o Saulo, mas não deu pra fazer nada. Todos falam que ele caiu do cavalo, mas a verdade é que nós dois caímos assim como todos que estavam com a gente.


Mula: Eu hein! Ainda bem que eu só vi um anjo, hehehe. Mas ficar olhando aquela espada de fogo na mão de um indivíduo com cara de poucos amigos não era agradável. Foi instintivo, eu fui desviando de mansinho pra sair de perto dele. E o lance da fala, ah foi muito legal, mas eu só pude dizer o que o Senhor permitiu. Se eu pudesse dizer pro Balaão tudo que eu tinha vontade, ahhh meu amiguinho...

Cavalo: Hehe, eu entrei de gaiato na situação. Depois do tombo nem sabia onde era o chão! Quando encontramos o Ananias eu queria poder falar e pedir se não tinha uma oração pra tremedeira!

Mula: Hahahaha, tu precisava ver a cara do Balaão, a tua deve ter ficado parecida. Mas sabe o quê eu ainda quero entender?

Cavalo: Hum?

Mula: Depois de tudo que a gente passa com eles, servindo e até correndo perigo, porque que eles se xingam usando os nossos nomes, como se fossemos coisas ruins?

Cavalo: Sei lá, acho que é uma manifestação subconsciente involuntária de desejo pela nossa simplicidade que acaba se manifestando ao contrário de forma pejorativa e negativa.

Mula: Wow, tu é bem inteligente pra um cavalo!

Cavalo: Claro, não sou burro!

Mula: O quê?!

Cavalo: Ih, foi mal. É o excesso de convivência com os humanos...

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O Protesto
Publicado originalmente no Realidade Profética em 09/05/2009

Um demônio estava dormindo no telhado de uma residência quando um de seus supervisores chegou e lhe deu uma bofetada na orelha dizendo:

-Acorda, mequetrefe! Tu por acaso não tem nada pra fazer?

-Não, senhor, agora não. Eu tinha, mas já faz um tempo que eu chego aqui e só fico olhando, e hoje acabei até cochilando. Lá de vez em quando eu sinto uma presençazinha de poder chegando mas é só dar um peteleco na mente deles que volta tudo ao normal.

-Isso é um absurdo! O chefe vai saber disso!

-Ah, ele já deve saber. Eu não sou o único. Tu é que tá demorando demais ao rodear a terra. Tem que aprender com o chefe meios mais rápidos...

-Não importa o que acontece, você precisa continuar trabalhando! Existem leis que não podem ser quebradas!

-É mesmo. Sabe, se um humano estiver trabalhando e outro humano chegar no trabalho dele e começar a fazer o serviço dele de graça e por conta própria, sem ser contratado pela empresa, o invasor é expulso dali ou contratado pois não pode trabalhar fora da legalidade. Mas aqui, a coisa tem virado a casa da mãe Joana. Esses caras que temos que afligir fazem o nosso serviço! E tem uns aqui que conseguem ser mais malignos que os piores demônios que eu já conheci! Chega a dar medo de pensar no que eles fariam se fossem realmente consagrados ao Altíssimo.

-Isso não vai ficar assim.

O supervisor saiu furioso, lançando setas e dardos inflamados para todos os lados e vociferando palavras de maldição. No dia seguinte, fez chegar um documento às mãos do príncipe das trevas:

"Vossa Alteza,

Chegou a meu conhecimento que existem soldados seus que estão dormindo no ponto porque argumentam que os humanos, principalmente os chamados "crentes", estão roubando-lhes as funções e tarefas, deixando-os entregues ao comodismo e à diversão de assistir às situações por estes perpetradas.
Por essa razão, reivindico que vossa alteza se apresente diante Dele, com base em Sua Palavra, e acuse os servos Dele de mais este pecado, e granjeie diante Dele a permissão de afligirmos os que se dizem Dele até a morte. Por mais que Ele os queira proteger, eles não são como Jó, e assim podemos pagar-lhes o salário do pecado, uma vez que pareça ser isso que desejam.
Dessa forma, poderemos voltar a fazer o que sempre fizemos e teremos reforços na luta contra aqueles poucos fiéis que insistem em viver em santidade, nos dando muito trabalho.
Ciente de que essas disparidades no mercado de trabalho logo serão sanadas, e crendo nos vossos ardis para reivindicar os direitos da categoria, me despeço com votos de um reinado pleno de vossa parte.

Aguardando pronunciamento,
Demônio Supervisor."

O príncipe, ao receber a petição, primeiro riu. Depois percebeu que era uma questão de autoridade atribuída não respeitada e ficou irado. Preparou o seu discurso e foi prontamente acusar os "irmãos" diante do trono.

Na semana seguinte, os demônios estavam trabalhando novamente. Haviam conseguido provar que podiam tocar nos bens e nas propriedades das igrejas porque tinham legalidade nelas. Começaram a haver incêndios e desmoronamentos, e várias pessoas começaram a ser mortas. Entre elas, muitos inocentes.

Porque eles exigiram cumprir a lei que era boa pra eles. Mas quem disse que eles teriam escrúpulos?

***

O Criador e o Coelho
Publicado originalmente no Realidade Profética em 02/04/2009.

Um coelho estava acostumado a dar os seus passeios matinais pelo bosque onde morava. Todos os dias era sempre igual. Saía da toca, comia umas folhas, umas frutas, levava alguma coisa pra casa e continuava sua feliz rotina. Até que algo aconteceu.

Numa dessas tranquilas manhãs, de repente, tudo ficou escuro. Muito barulho se ouvia ao redor. Gargalhadas altas e uma voz rouca e potente que disse:

-Eles vão adorar!

Um estrondo debaixo dos seu pés deu-lhe um tremendo susto e sentiu seu corpo totalmente a deriva sobre um espaço desconhecido. Começou a enjoar enquanto era era jogado de um lado para o outro naquele saco fedorento.

Subitamente, tudo parou. Ouviu passos, alguém o ergueu. Mais passos. Silêncio. O saco se abriu.

Um humano com a cara enrugada e os cabelos ralos e bem brancos o agarrou pelo cangote e o girou diante dos seus olhos. O humano sorriu encarando-o e disse:

-Bem vindo ao seu novo lar, amiguinho! He he he!

E o pôs numa gaiola. Enfiou uma folha de alface murcha entre as grades e um pote d'água pendurado nelas. E a montanha russa começou outra vez.

Saíram de um galpão e foram em direção a uma bela casa. Então o coelho orou desesperado:

-Senhor Criador! O que está acontecendo, onde estou? Quero voltar para o meu bosque, onde eu te louvo todos os dias! Porque esse humano me pegou? Socorro!

O velho entrou na casa. Crianças vieram recebê-lo com muita alegria. O velho mostrou-lhes a gaiola e disse:

-Feliz Páscoa!

O coelho disse ao Criador:

-Essa data não é aquela que nós deveríamos ficar longe dos humanos?

-É sim, coelho, mas dê uma olhada ao seu redor.

O coelho olhou e ficou horrorizado. Haviam imagens e ídolos com formas de coelhos e ovos por todos os lados. No canto da sala havia um altar com quatro cestos cheios de oferendas diante de um plateau vazio. Uma das crianças disse:

-Vamos colocá-lo ali!

O coelho disse novamente ao Senhor:

-Senhor, o que eles estão fazendo?! Isso é um erro! Eu não posso ser adorado! Parem com esse absurdo, me tirem daqui! Socorro! Quero ir embora!

E começou a se agitar dentro da gaiola. As crianças disseram:

-Vamos cantar pra ele se acalmar; "Coelhinho da páscoa, que trazes pra mim? Um ovo, dois ovos, três ovos, assim? Coelhinho..."

-Acho que se eu parar elas param...

Se encolheu no canto. As crianças pararam e foram brincar.

O tempo passou, a páscoa também e o coelho voltou para o galpão, onde a comida era fedorenta e o espaço apertado. Todos os dias ele lembrava do bosque.

Numa noite, o humano esqueceu as portas abertas, pois estava cheio de vinho. O Criador acordou o coelho e ele fugiu, voltando ao seu bosque.

Chegando lá, foi recebido com festa por sua família que agradeceram ao Criador por sua volta; mesmo ficando perplexos de saber que apesar de todas as coisas maravilhosas que o Criador nos proporciona, existem humanos que adoram coelhos...

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